Transforme como uma mulher

Transforme como uma mulher

Selecionamos parte de um relato de uma executiva de alto escalão do mundo de TI e como ela, Bárbara Olivier, lida com os desafios de atuar no segmento que é masculino e com muitas oportunidades e espaço para a diversidade. Ela conta os caminhos que seguiu para se superar e manter a equipe unida em busca da transformação que a empresa busca. Confira artigo inspirador!

* Por Bárbara Olivier

Lembro-me perfeitamente daquela reunião. Eu estava cercada pelos fundadores e diretores da minha empresa e por um consultor. E, sim, eu era a única mulher na sala. Após uma análise detalhada sobre os cenários da empresa e dos times, e sobre possibilidades, eu estava chocada com a proposta de um deles. Na hora, disse que achava que não, porém, passado o susto, pensei por uns dias, antecipei riscos, identifiquei aliados e ofensores, pensei no que eu realmente queria viver como carreira e nos desafios que poderiam me encantar e fui ficando mais curiosa. Fui encontrando mais “sins” do que “nãos” e acabei dizendo sim à tal proposta, que era, na verdade, encarar um cargo, produtos e times ligados diretamente ao projeto de transformação digital da empresa.

Hoje, dirijo Inovação e Tecnologia nessa grande empresa da área de Educação Corporativa, ou, como preferimos, Aprendizagem Corporativa. Nossa empresa começou a se provocar para a transformação digital alguns anos antes da tal reunião, assim como uma parte do mercado começou também. Naquela época, cada um interpretava isso de um jeito e ninguém conhecia alguém que de verdade vivesse de forma digital. Primeiras tentativas? Tiro n’água. Depois as empresas começaram a aprender com alguns erros, abriram-se para parcerias e iniciaram o primeiro passo para a sustentação de uma transformação digital: o tão necessário ajuste de mindset.

Acredito que parte dos resultados do ajuste de mindset em que a empresa investiu por algum tempo permitiu que não fizesse diferença eu ser mulher, mas sim o fato de ser formada e pós-graduada em áreas de tecnologia, de ter a vida toda mergulhado em educação corporativa e ter vivido os últimos anos em projetos ligados a inovação e produtos – que é como deveria ser em qualquer lugar, certo? No entanto, não é o caso na maioria das vezes…

Se eu fosse apontar o primeiro passo que dei rumo a isso tudo, a essa mudança de chavinha total da carreira para tecnologia e inovação, chutaria que foi a paixão por entender e buscar implantar processos de inovação no que isso cabia. A “lente” do design thinking muda sua mente de uma forma que você não volta mais a interpretar coisas da mesma forma. Primeiro, sempre pergunto qual é o problema, qual é a percepção, e só aí provoco se o que me pedem resolve mesmo ou se tem um caminho melhor, mais ágil e mais conectado com a estratégia como um todo. Entretanto design thinking é só o iniciozinho. Para a minha carreira, o propulsor seguinte foram os processos de antecipação de tendências e modelagens de futuros. A mente abriu, as hipóteses de futuros desejáveis se multiplicaram e, bem mais embasada, defini os direcionadores para o que eu faço hoje. Conto isso, mas reforço que ninguém, n-i-n-g-u-é-m, vive a transformação digital com as mesmas prioridades, processos e ferramentas do outro. Não existe um framework que se possa usar de bóia (e acreditem que procurei e pedi por isso). Todos precisam mudar e adaptar-se para fazerem sua própria transformação.

Mais uma coisa: preciso deixar claro que, mesmo dirigindo essa área, a transformação digital não é minha, ela está na empresa inteira.

Ingredientes que deram certo

Propósito e estratégia

Se eu queria ir para algum lugar, precisava saber para onde e por quê. E, se minha empresa queria transformar, precisava definir seu novo propósito e sua real estratégia pois é isso que conecta todo o mundo no mesmo fluxo de mudança. A transformação digital em si, por mais estratégica que seja, é praticamente o plano tático pós-definição do estratégico. E o que mais me deu drive? O propósito da empresa, é sempre ele.

Pessoas & “novas” habilidades

Esse foi um dos pontos que mais sustentou o início da operação mais insana que todos nós já vivemos. Precisei escolher excelentes pessoas que tivessem em comum abertura à mudança, agilidade para a execução, fossem bons em colaboração e operação, mergulhassem em solução de problemas, tivessem inteligência emocional e, acima de tudo, tivessem mindset de crescimento porque a transformação não acabaria.

Isso já está bastante tangível no cenário de desenvolvimento de talentos. A Mckinsey mesma gerou um report sobre Força de Trabalho do Futuro e Mudança de Habilidades Pela Automação, em que consta que, até 2030, a demanda por tipos de habilidades mudará bastante. Será cada vez mais crescente a necessidade de habilidades cognitivas altas (como análise, avaliação, criação), habilidades socioemocionais (empreendedorismo, tomada de decisão, liderança etc.) e habilidades tecnológicas (conhecimento de programação, digital skills etc.), sendo essas últimas as que terão um crescimento ainda mais acentuado, aliás. Inversamente, se tornarão menos necessárias habilidades ditas cognitivas básicas (Inserção de dados, processamento de dados), e habilidades físicas e manuais (operação de equipamento, inspeção, monitoramento etc.).

O mix certo de profissionais com conhecimento técnico e habilidades fundamentais é uma parte da receita que precisa ser cuidada com muita atenção e ser constantemente redefinida e repactuada. Eles movimentam. Eles cocriam. Eles pilotam. Eles ajustam. Essa grande rede autônoma, colaborativa, relacional e corajosa.

Liderança digital para a mudança

Bem no início do desafio, minha rotina era receber problemas e reorganizá-los em partes, priorizando tudo. Além disso, assumia que não sabia tudo e buscava montar uma rede de colaboradores e de aliados, mesmo parceiros externos – algo que normalmente associam a perfil de lideranças femininas. Entendi que precisava me juntar a outros que tivessem conhecimentos e habilidades complementares. Precisei estar aberta e empática para entender por que algumas coisas aconteceram como aconteceram e conseguir mapear o mindset que as pessoas possuíam, o que me permitia vislumbrar se combinariam com o que estávamos querendo criar no tempo e recursos que tínhamos disponíveis. E, acima de tudo, tive de resgatar o que conhecia de tecnologia e reciclar-me em tudo de novo que surgia e impactava meu desempenho como executiva.

Tecnologias exponenciais

Não dá para transformar digitalmente e querer acelerar e ter futuro sem as ditas tecnologias exponenciais. E não adianta só aprender o que são. É preciso testar coisas, buscar parceiros, pilotar projetos, errar bastante no início e aprender o que faz sentido pra você e em quais horizontes consegue situar essa mudança.

E na prática, vai como?

A neurociência nos lembra que as mulheres são “programadas” para se conectarem e formarem relacionamentos (liderança relacional). Se você tentar liderar sem se conectar, ninguém confiará em você nem se sentirá seguro. Brinco dizendo que montamos uma gangue e, se ela estiver realmente toda conectada, com as mensagens se disseminando, vai avançar como nunca.

Já o foco, esse é rotineiramente repactuado com o time todo. Não há nada que a gente combine de fazer a que não se siga um checklist imaginário de confirmação frente a propósito, objetivos, estratégia. Semanalmente, coisas acontecem e ameaçam mudar o rumo. É preciso estar aberta a essas possibilidades. Até hoje, repasso meu checklist mental, antecipo riscos e removo o que é só distração.

Apesar de ter citado várias características muito relacionadas a mulheres, muito em virtude da forma como opero e das habilidades que uso, vale destacar que também encontro essas características em homens do time porque, afinal de contas, são habilidades e qualquer habilidade pode ser desenvolvida por qualquer um.

E, quando me perguntam como é ver tudo que as mulheres têm realizado no campo profissional, eu sempre digo que, mesmo já sendo uma executiva, cada mulher que vence algo me emociona e me enche de orgulho.

É assim que uma mulher transforma. E somos muitas.

*Barbara Olivier é criativa, feminista, mãe da esperta e maker Sophie, envolvida em trends e futurismo e Diretora Executiva de Inovação e Tecnologia na Afferolab, empresa líder em Aprendizagem Corporativa no Brasil.

 

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