Coringa: complexo e necessário

Coringa: complexo e necessário

Você conhece a cidade de Gotham? Sombria, fria, violenta, cheia de políticos arbitrários, cheia de gente querendo tirar vantagem das pessoas, um barril cheio de pólvora prestes a explodir.

Já viu essa história perto de você?

Em Gotham é assim, sem saída! Lá, você nasce, coisas acontecem, você faz uma escolha e vira herói ou vilão.

Cidade do Batman, do Coringa, do Robin, do Pinguim, da Mulher Gato, do Alfred, da Batgirl, enfim são muitos personagens criados nesse mundo não tão distante.

Trago esse contexto para iniciar um olhar sobre uma dessas histórias, há pouco contada nos cinemas, a história sobre o “nascimento” do Coringa.

Perturbador! Coringa, como o nome não diz, não é um filme de super-heróis e tão pouco tem um enredo que se espera. O roteiro tem jogo de palavras instigantes! Você lê nas entrelinhas e se vê sofrendo juntamente com Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), o que passa a ser chamado de Coringa. Você assiste a um estudo sobre a sociedade e como ela está enlouquecendo, no pior sentido da palavra. Coringa chega a perguntar para a sua psiquiatra “Sou eu ou o mundo que está louco?” e durante toda história vamos sucumbido junto com essa ideia.

Os desdobramentos e roteiro mostram que a loucura tem sido mascarada por desejos de consumo e de aparências até o momento em que a própria sociedade não aguenta. Em momentos de sofrimento e solidão, Coringa escreve para si mesmo em seu diário e diz “Eu espero que minha morte valha mais centavos que minha vida”. Durante toda a sua trajetória, ele mostra sinais de solidão, de carência, de busca por si mesmo, de sofrimento calado, de sofrimento gargalhado… Nos apresenta a crueza da vida, sua insignificância frente a tudo o que acontece, a falta de compreensão e empatia que envolve os acontecimentos que vão se desencadeando.

Enquanto assistimos ao filme, somos capturados por esse contexto: Sem saída. O que nos resta senão gargalhar para lidar com a dor? Involuntária, esperada e necessária.

Lamento incoerente… “Me perdoe, eu possuo um tipo de epilepsia gelástica”. A característica desta patologia é uma risada que aparece de forma inadequada, onde o riso incontrolável não é compatível com as emoções do seu portador.

Em uma Gotham, marcada pela sujeira, greve de garis, corrupção e descasos do poder público, vive o Coringa. Se não há garis, imagine então medicamentos para tratamento de saúde mental. Entre as várias frases para serem repetidas deste roteiro rico, está “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”.

Diante de uma sociedade que normaliza sua tristeza e seu sofrimento diário e se incomoda com suas gargalhadas, causadas por uma patologia neurológica, ou realiza bullying contra a personagem diante dessa condição, ele cai dentro de uma emboscada inesperada e que muda a sua vida.

Ele apresenta uma série de problemas psicológicos graves, não consegue se encontrar em um mundo cada vez mais perverso e sente-se como uma pessoa invisível, para quem a sociedade não dá a mínima, nem mesmo os remédios para aliviar a sua dor e, talvez, anestesiá-lo de tudo que sofre.

Trabalhando como palhaço durante o dia, ele tenta a sorte como comediante de stand-up à noite.

Em seus momentos de delírios, Coringa se vê ganhando carinho e amor de uma mulher e sonha com o dia em que tenha uma vida normal, onde até o seu pai possa estar presente com abraço e não dinheiro. Ele espera um pouco mais de amor da sociedade. Quando se cansa de “literalmente” ganhar chutes, Coringa resolve dar um chute na vida. O corte da verba pública, a falta de remédios e o descaso da sociedade culminam no pior fruto da sociedade. A sociedade mostra seu lado poderoso e violento.

Mesmo neste universo violento, Coringa encontra piada de mau gosto em rir do próprio momento em que imagina uma criança, o futuro Batman, órfão de pais assim como ele. A vingança torna-se uma piada. As figuras de linguagem no filme traduzem a loucura em que vivemos. Em um mundo de problemas calorosos e eu já tão cansado da frieza das pessoas, posso entrar numa geladeira e, quem sabe, treinar até que ponto posso suportar este gelo. Já que a sociedade espera que estejamos sempre sorridentes e somos cobrados para estarmos felizes o tempo todo, eu mesmo puxo com as mãos os meus lábios para sorrir, pois por dentro de mim não há alegria. E quando faltar uma boa maquiagem, eu tiro o meu próprio sangue para pintar a minha boca de vermelho. São muitas as figuras de linguagem e comportamentos que atestam que há uma sociedade doente e sem empatia. Estamos ocupados demais olhando para nós mesmos e para o nosso umbigo apenas. Afinal, isso só acontece em Gotham!

Talvez você o julgue irresponsável, inconsequente, que ele não esteja compreendendo nada, será pego de surpresa, pois ele tem a real noção do que se passa, em um momento de lucidez. É assim que a trama vai se sucedendo, real e imaginário se cruzando o tempo todo.  

A raiva parece estar no ar e essa realidade deve nos forçar a olharmos para dentro e fazermos emergir os sentimentos reprimidos e canalizá-los para que possamos construir. A melhor resposta não será nunca a violência, mas sim tocarmos na verdadeira ferida ao entendermos como funciona nossa sociedade atual e como ela vem potencializando o desenvolvimento de atos violentos.

O que você vem fazendo para tornar o mundo diferente de Gotham? Espero que o filme possa nos levar a refletir sobre nossas atitudes e nossas maneiras de nos manifestar no mundo e, sobretudo, a entendermos como estamos falhando na promoção de uma sociedade mais solidária, justa e inclusiva. Não acho que o filme por si só possa incitar a violência (tudo pode ser gatilho para a brutalidade), mas pode nos mostrar como uma sociedade empática pode ser um dos caminhos para modificarmos nossa realidade.

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