Quarentena e saúde mental: crescem casos de depressão entre brasileiros

Quarentena e saúde mental: crescem casos de depressão entre brasileiros

Carla Béck, psicóloga da InfinitaEPH, elenca sugestões que todos podem seguir para evitar transtornos psicológicos

As incertezas com o novo coronavírus e as mudanças impostas pelo isolamento social vêm provocando sofrimento psíquico. Logo após a decretação da quarentena por causa da pandemia de Covid-19, o Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), iniciou uma pesquisa sobre o comportamento dos brasileiros durante o isolamento. Os resultados mostram que os casos de depressão praticamente dobraram entre os entrevistados, enquanto as ocorrências de ansiedade e estresse tiveram um aumento de 80%, nesse período.

Para a realização da pesquisa, 1.460 pessoas em 23 estados e todas as regiões do país responderam a um questionário on-line com mais de 200 perguntas, em dois momentos específicos, de 20 a 25 de março e de 15 a 20 de abril. O estudo foi divulgado pela Uerj no último dia 05 de maio.

De acordo com os dados analisados, as mulheres são mais propensas do que os homens a sofrerem com estresse e ansiedade durante a quarentena. Outros fatores de risco são: alimentação desregrada, doenças preexistentes, ausência de acompanhamento psicológico, sedentarismo e a necessidade de sair de casa para trabalhar. Já para a depressão, as principais causas são idade mais avançada, ausência de crianças em casa, baixo nível de escolaridade e a presença de idosos no ambiente doméstico.

A prevalência de pessoas com estresse agudo na primeira coleta de dados foi de 6,9% contra 9,7%, na segunda. Para a depressão, os números saltaram de 4,2% para 8,0%. Por último, no caso de crise aguda de ansiedade, saiu de 8,7% na primeira coleta para 14,9%, na segunda coleta.

Por outro lado, a pesquisa sinaliza que quem recorreu à psicoterapia pela internet apresentou índices menores de estresse e ansiedade. Da mesma forma, aqueles que puderam praticar exercício aeróbico tiveram melhor desempenho do que os que não fizeram nenhuma atividade física, ou que praticaram apenas atividade de força.

Carla Béck, psicóloga e diretora da InfinitaEPH, analisa a pesquisa e destaca que as pessoas devem entender que a quarentena não é competição de produtividade e devem escolher um caminho para simplificar as tarefas do dia a dia, sem cobranças exageradas. “Adaptar-se às mudanças requer calma e é difícil sair tomando várias atitudes rapidamente. É preciso tentar, minimamente, manter a rotina, alimentar-se corretamente, cuidar da higiene pessoal e fazer o básico bem feito. O isolamento social pode significar uma convivência com o digital, então é necessário manter relacionamentos à distância e dar atenção aos idosos, que são mais vulneráveis e apareceram no grupo de risco da pesquisa sobre depressão”, explica ela.

A psicóloga também recomenda atentar-se se a ansiedade está atrapalhando o desenvolvimento das atividades da rotina e observar comportamentos agressivos e respiração acelerada. “Fazer exercício de respiração ajuda a controlar a ansiedade assim como evitar o uso excessivo de aparelhos eletrônicos, como celular, antes de dormir. Dormir bem ajuda a melhorar o sistema imunológico e a capacidade de lidar com os desafios do dia seguinte. Reforço sobre tentar manter os hábitos que já são da rotina e buscar ajuda psicológica em caso de descontrole. Todos estão sendo impactados de alguma forma com o novo coronavírus e é preciso evitar preconceito sobre quem busca ajuda de psicólogos ou psiquiatras”, destaca. 

*A pesquisa citada no texto foi feita pelo professor Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Filgueiras coordena o estudo por meio do Laboratório de Neuropsicologia Cognitiva e Esportiva (LaNCE), em parceria com o Dr. Matthew Stults-Kolehmainen, do Yale New Haven Hospital, nos EUA.  

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