Um musical sobre dois mundos: o Fantasma da Ópera

Um musical sobre dois mundos: o Fantasma da Ópera

Sabe aquele momento em que tudo parece estranho, tudo desperta o pavor, e seu único desejo é estar novamente em sua casa, aconchegado no colo de sua mãe, feito uma criança assustada? Quem nunca passou por um momento assim na vida? Mudar de emprego ou permanecer no antigo? Viajar pelo mundo ou estabelecer raízes?

Esse tipo de escolha, que nos faz sentir diante de uma encruzilhada, é o tema mais profundo da obra que analiso e indico hoje, o filme musical O Fantasma da Ópera. O diretor Joel Schumacher foi extremamente fiel ao livro de 1911 de Gaston Leroux quando decidiu transformar em película a trama tão bela e bem escrita. A história se passa na França, no final do século XIX, e tem como cenário principal o teatro Ópera Garnier, onde os três personagens principais se encontram. Como de práxis, há uma linda heroína sendo disputada por dois sedutores cavalheiros, e aqui não seria exagero dizer, um cavalheiro das sombras e outro da luz. Aliás, essa oposição de luz e sombra permeia toda fotografia do filme, demarcando claramente para o espectador a cisão de lados.

A heroína da história é Christine, uma órfã, com um talento singular para cantar óperas, e que foi criada por uma preparadora de elenco nos dormitórios do teatro. O cavalheiro das sombras é Erik, mais conhecido como Fantasma da Ópera, que também vivia no teatro, mas escondido em seu subsolo, devido a uma deformidade em seu rosto, que tornava praticamente desfigurado, uma imagem assustadora que ele próprio desejava esconder atrás de uma máscara. E por fim, o cavalheiro da luz, Raoul, o patrocinador dos espetáculos do teatro. É entorno do amor que Christine desperta em ambos que se desenrola a trama do filme. Outros dois personagens muito importantes para a história são Madame Giry, a preparadora de elenco do teatro e sua filha, Meg Giry bailarina e melhor amiga de Christine. Não seria spoiller dizer o óbvio, que há duelos e que a heroína também se apaixona pelos dois e tem muita dificuldade para tomar a decisão final. Isso porque essa é a trama superficial, mas vamos agora nos debruçar sobre os significados mais profundos da obra.

Christine aparece como personagem central da trama, sendo disputada por dois universos claramente delimitados por cores, luzes e ambientes. A cisão é a seguinte, de um lado temos a escuridão, representada pelo Fantasma da Ópera Erik e por Madame Giry, que funciona como uma espécie de mensageira entre esses dois mundos, levando cartas para que Erik possa se comunicar. A marca que identifica o Fantasma da Ópera, uma vez que ele não gosta de aparecer, é uma rosa vermelha com um laço preto deixada por ele para indicar que passou por ali. Do lado oposto temos a luz, representada por Raoul e Meg Giry, que sendo amiga de Christine sempre a aconselha a se afastar das sombras.

Divididos os lados dos personagens, podemos reafirmar essa cisão observando os figurinos, sempre escuros, oscilando entre o preto e bordô para os personagens das sombras, e sempre claros, quando não branquíssimos para os personagens da luz. Christine oscila entre os figurinos, dependendo de sua inclinação no momento. Da mesma forma acontece a divisão de ambientes, com o Fantasma no subsolo e Raoul sempre nos camarotes mais altos do teatro, e Christine novamente transitando entre eles.

Mas o que significa essa divisão de lados? Refletindo sobre o musical percebemos que esse universo da escuridão representa o novo, aquilo que Christine ainda não conhece, mas que a fascina e encanta. Já o universo da luz é o que podemos chamar de sua zona de conforto, o lugar de segurança que ela já conhece.

Você pode se perguntar, caso não tenha visto o musical, mas o que poderia atrair tanto Christine em um universo sombrio, habitado por um ser desfigurado e assustador? Por que ela ainda tem alguma dúvida? Raoul é um verdadeiro príncipe num cavalo branco! Ora, porque nas sombras também há beleza e sob a luz nem tudo é belo. O magnífico dom de Christine para cantar foi aprimorado ao longo dos anos por Erik, que conversava com ela através dos tubos de ventilação do teatro, voz que ela acreditava ser um anjo da música a ensinando. E por outro lado, Raoul, tão amoroso e gentil, na verdade usa o discurso de protegê-la para dominá-la. Fica muito claro, desde os primeiros minutos do filme, o amor que ela tem pela música. Quem a faz apurar sua técnica, aprofundar seus conhecimentos, quem lhe dá asas para seguir seu maior sonho é o Fantasma da Ópera. Raoul não, ele em momento nenhum fala sobre a música, ou sobre o seu desejo de cantar, ele fala apenas em guardá-la e protegê-la. Honestamente, qual amor te parece mais sublime?

Então, por que Christine não fica com o Fantasma da Ópera, capaz de elevar o seu espírito e revelar seu verdadeiro dom? Porque Christine é um personagem extremamente humano, que nos representa em cada gesto, e ela tem medo! Ela teme esse universo novo e desconhecido, ainda que fascinante. Quem não tremeria diante da fúria de sua verdade mais íntima, desejando emergir à superfície de forma tão avassaladora quanto a erupção de um vulcão? Quanto seria necessário destruir para ressurgir das cinzas? Quantas vezes sentimos borbulhar dentro de nós uma verdade, mas preferimos acalmá-la oferecendo o conforto e a segurança daquilo que já conhecemos? É isso que Christine faz! Quando se vê diante da escolha, ela se volta para o universo da luz, que ela já conhece e lhe parece mais atrativo e aconchegante. Ela parte para uma vida tranquila ao lado de Raoul.

A nossa maior surpresa, ainda assim, fica para o final.  A última cena, sem nenhuma palavra, nos grita uma verdade: Raoul, já idoso, vai ao cemitério visitar o túmulo de Christine, falecida dois anos antes. As imagens são sem cor, sem luz, sem vida! Na lápide podemos ver escrito os dizeres “amada esposa e mãe” sem fazer qualquer menção ao canto, a sua carreira, ao seu verdadeiro amor, que sabemos, é a música. Tudo indica que Christine abriu mão de tudo isso para viver sob a proteção de Raoul. Ele venceu, a dominou, e dessa forma também perdeu, pois, a luz de Christine se apagou, e a vida se tornou completamente sem cor. Ao olhar uma pouco melhor para lápide, Raoul vê uma belíssima rosa vermelha, com um laço preto, essa é única imagem com cor em todo cenário! É a única fonte de vida, que se ilumina como mágica por uma vela que se ascende repentinamente.

Essa rosa, a representação do Fantasma da Ópera, nos revela que, por mais assustador e sombrio que seja o caminho desconhecido, não deveríamos temê-lo tanto, o impacto sempre é maior a primeira vez que nos deparamos com a sombra, depois os olhos vão se acostumando, até que aquilo que tanto nos aterrorizava se revela como um grande tesouro, no caso de Christine seria a luz do conhecimento, do aperfeiçoamento de seu dom, que a transformaria em uma virtuosa.

De qualquer forma, não apenas pela história de amor ou pela profunda reflexão que podemos fazer sobre medos e escolhas, fica a sugestão deste belíssimo musical, também pelas incríveis canções, magnífica fotografia com cenários lindos, e por todo capricho com os figurinos e demais detalhes de ambientação, capazes de nos transportar para aqueles dias nublados e frios retratados no filme.

Pratique o autoconhecimento e potencialize-se!

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