Resenha do filme: o dilema das redes

Resenha do filme: o dilema das redes

A angustia do século: O dilema das Redes

“Nada grandioso entra nas vidas dos mortais sem uma maldição” – Sófocles

Assim começa o documentário que analiso hoje, o polêmico “O Dilema das Redes” do diretor Jeff Orlowski, que estreou na Netflix no último dia 09 trazendo em seu elenco alguns dos principais nomes do Vale do Silício, como Tristan Harris, ex-designer ético do Google; Tim Kendal, ex-presidente do Pinterest; Justin Rosenstein, ex-engenheiro do Facebook; Roger McNamee, investidor em tecnologia, e Jaron Lanier, cientista da computação e autor de “Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais”. Como o nome já sinaliza, no centro do debate estão as redes sociais e o impacto que elas têm causado para as pessoas ao redor do mundo.

Na minha análise, vou destacar como o nosso cérebro está sendo estimulado a novos comportamentos e o porquê nós precisamos ter controle sobre o excesso de tempo em redes sociais e também alertar as crianças e adolescentes da Geração Z, pois elas nasceram em um mundo já bastante tecnológico.

As redes sociais e a tecnologia são ótimas ferramentas de trabalho e relacionamento, mas precisamos estar atentos aos excessos e impactos, também os negativos, em nossa vida. Destaco aqui como o nosso cérebro responde aos estímulos das redes sociais.

Sabe aquele momento em que você silencia o seu smartphone porque sabe que não pode ser interrompido, mas chega uma notificação e ele vibra? O que você faz? Ignora a notificação ou abre só para checar, para saber se não é nada importante? Esse é apenas um dos comportamentos aos quais as redes sociais nos induz e faz isso nos tratando literalmente como cobaias, usando o mecanismo do reforço de comportamento presente em todos os animais: a liberação de Dopamina como recompensa.

Funciona da seguinte forma: temos a necessidade biológica de estar conectados a outras pessoas, as redes sociais facilitam esse processo, e quando nos sentimos próximos a alguém nosso corpo libera um hormônio chamado Dopamina, responsável pela sensação de bem-estar. As redes sociais nos possibilitam estar “próximos” a alguém o tempo todo. Isso significa liberação de bem-estar a um clique de distância. É por esse motivo que as redes são altamente viciantes, e é por esse motivo que você pega seu smartphone para checar se não é nada importante.

Outra frase citada ao longo do filme, “Existem apenas duas indústrias que chamam seus clientes de usuários: a de drogas e a de software”, reforça a ideia do vício. Dita pelo professor da Universidade de Yale, Edward Tufte, ela nos faz pensar a respeito do nosso papel nesse mercado, somos usuários! Nossa atenção é o petróleo do século XXI. A lógica é manter as pessoas conectadas cada vez por mais tempo, para que os algoritmos possam “conhecer” cada vez melhor o usuário e, assim, começar a sugerir determinados conteúdos e publicidades que literalmente direcionam para onde o usuário vai. Essas redes são capazes de mudar sutilmente o que fazemos, como pensamos e quem somos para garantir o sucesso das publicidades que vendem.

Como qualquer vício, e com o agravante de que para nos manipular nos bombardeia diariamente com imagens perfeitas, de vidas perfeitas, corpos perfeitos, refeições perfeitas e casas perfeitas, as redes sociais têm muitos aspectos negativos, possuem uma ligação direta com o aumento das taxas de depressão e ansiedade, que, segundo o próprio documentário aumentaram muito após os anos 2000, e tem afetado principalmente a chamada Geração Z, nascidos após 1996. Nesse grupo de pessoas foi observada uma tendência a se arriscar menos, eles têm tirado menos habilitação, muitos no ensino médio ainda não tinham vivido nenhuma experiência romântica, ou seja, não vivem a vida real! Pior ainda para os mais jovens. Foi observado um aumento nas taxas de suicídio entre pré-adolescentes do sexo feminino, de 10 a 12 anos de idade. São crianças que estão se matando por conta de uma vida idealizada e irreal que veem nas redes!

Todos nós sabemos, em algum nível, que fotos e vídeos postados por celebridades e até mesmo por pessoas comuns não representam as 24 horas do dia daquela pessoa, representam apenas o preciso momento em que foram registrados, mas, aparentemente, estamos tão viciados em consumir a vida alheia, que nos apegamos ao fato de que mesmo que só naquele momento, aquela pessoa teve aquele prazer e nós não! Isso gera a depressão e a ansiedade, o desejo de ter algo perfeito para postar também. Não nos atentamos que aquela foto ou vídeo pode simplesmente não ser real, ser apenas um bom enquadramento, um recorte de uma realidade totalmente diferente, pode ser fake.

A vida está acontecendo enquanto estamos postando. Então fica meu convite para navegarmos no que é importante e fazemos um uso mais consciente dos recursos que temos disponíveis. Para o bem da nossa saúde mental, do convívio com nossa família, e em outros níveis, para o bem da nossa produtividade, das nossas crianças que nos têm como exemplo e do futuro, que é incerto, mas está sendo desenhado agora.

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