Resenha de filme: 37 segundos – Sobre autoconhecimento e possibilidades: 37 segundos, uma feliz e emocionante descoberta

Resenha de filme: 37 segundos – Sobre autoconhecimento e possibilidades: 37 segundos, uma feliz e emocionante descoberta

Sensibilidade, criatividade e repertório, todo artista necessita dessa combinação para produzir sua obra. Destes três ingredientes parece ser mais fácil ter o repertório do que a sensibilidade e a criatividade. Repertório se adquire vivendo, no dia a dia, nas viagens, com as experiências que se tem. Aquele porre épico, repertório. Aquela viagem de última hora, sem planejar, repertório. Aquele fora levado de quem se gosta, repertório.

Mas imagine um pássaro em uma gaiola. Ele tem asas, ele sabe voar, mas todo seu repertório se limita ao espaço da tela que o cerca. Essa é Yuma, a protagonista do filme 37 segundos, da Netflix, um drama japonês, lançado em 2020, com roteiro e direção de Hikari, já conhecida diretora de curtas como o Tsuyako.

Yuma é uma jovem japonesa de 23 anos, que sonha em ser reconhecida pelo seu trabalho de mangaká, escritora de mangá, um tipo de HQ japonês. Tudo perfeitamente possível, já que Yuma é talentosa, criativa e desenha bem, sua única limitação é a superproteção de sua mãe. O núcleo familiar é composto apenas por elas duas, e sua mãe se dedica quase que exclusivamente a ela. Yuma trabalha, mas sua rotina é limitada às idas e vindas entre a sua casa e seu trabalho. Seu repertório é o metrô e as pessoas que entram e saem, alheias umas às outras.

Yuma não está satisfeita com o seu trabalho, ela é uma espécie de escritora fantasma, ou seja, escreve mangás para outra pessoa. Mas ela acredita no seu potencial e quer ser reconhecida por ele. Mais do que isso, ela não está satisfeita com essa rotina de vida à qual se vê presa. Yuma tem anseios maiores, ela quer voar! Então ela começa a pesquisar o mercado de mangás, e decide apresentar o seu trabalho para outros editores.

Uma editora de mangás vê o trabalho de Yuma e faz a seguinte crítica: os desenhos são ótimos, o roteiro da história também, mas falta vida, falta verdade no que está ali. Falta a Yuma, repertório. Decidida a mudar de vida, a jornada de Yuma começa na busca por esse repertório, mas vai se aprofundando ao longo do filme e se transforma em uma jornada de autoconhecimento profunda, sensível e tocante.

Seu processo de autoconhecimento se inicia com uma tentativa de entender a sua sexualidade. Yuma não tem questionamentos sobre hétero ou homossexualidade, ela tem questionamentos sobre como é ser tocada e beijada, pois nunca em sua vida teve esse tipo de contato com ninguém. Ela tenta entender seu corpo, tenta se descobrir, mas logo muda de estratégia e parte para os aplicativos de encontro, e depois para busca de prazer pago.

Esse processo vai se mostrando rico porque faz com que ela conheça melhor a cidade onde mora, visite outros ambientes, conheça pessoas novas e faça boas amizades em lugares que poderiam ser considerados um tanto perigosos. Yuma descobre o prazer de estar em companhia de pessoas. O prazer de conversar, falar bobagens, dar boas risadas e perder a noção do tempo.

A mãe de Yuma vai notando suas mudanças. Chegando tarde em casa, escondendo fatos, mentindo, nesse momento o processo de desconstrução da mãe começa. Não seria uma jornada de autoconhecimento se não houvesse rompimento com a mãe. A figura materna é, via de regra, das mais trabalhadas em consultórios de terapeutas e psicólogos, tamanha influência que exercem sobre os filhos, para o bem ou para mal. Se a sua presença intensa pode gerar danos, a sua ausência completa pode ser ainda pior.

Yuma percebe que para conquistar as mudanças que almeja para sua vida, precisa sim se afastar da superproteção de sua mãe. Ela gosta de sair com os novos amigos, de rir, de tudo que qualquer pessoa da sua idade também gosta. Mas sua mãe a desaprova rigorosamente, e se opõe a essa possibilidade de vida. Então a jornada de Yuma vai em direção ao seu passado, na procura pelo pai.

Conhecer a verdade sobre sua história é também se autoconhecer. Buscar o confronto com o pai para entender o porquê do abandono paterno se revela a maior aventura que Yuma se propôs e desbravou. Suas descobertas são surpreendentes, daquelas que puxam o tapete do espectador, que mal se levanta e já cai de novo com novas descobertas, mas a fazem entender toda a postura que sua mãe tem em relação a ela. É o processo final de sua jornada, entender e acolher os motivos de sua mãe, sabendo que continuarão discordando, mas que ainda assim seguirão juntas.

Há também um detalhe, que em meio a todo esse enredo não passa despercebido, Yuma tem paralisia cerebral. Ela realiza toda essa jornada sob uma cadeira de rodas que utiliza para se locomover, um de seus braços tem pouca mobilidade e sua voz tem pouca projeção. Tudo isso apresenta ao público uma jovem vulnerável e para quem seria muito mais cômodo continuar vivendo como estava, mas ao longo do filme Yuma mostra que não. Sua paralisia não a define, sua pouca mobilidade não a limita e ela não se contenta em sobreviver, ela quer vida!

Um filme delicado, profundo, repleto de figuras femininas decisivas, e que não é sobre as limitações impostas pela condição de Yuma e sua jornada por superação. Ao contrário, ela é ciente das suas limitações, o que ela busca saber sobre si é o mesmo que qualquer outra pessoa busca. Isso nos leva a inúmeras reflexões a respeito de como as diferentes possibilidades do corpo não representam diferença para os anseios e sonhos que se tem. Mais do que isso, o autoconhecimento, embora individual, é uma jornada que tem um único roteiro e tudo que Yuma precisava era de condições favoráveis para trilhar a sua.

Conhecer melhor seu corpo, seus gostos, sua história. Ter novas experiências, conhecer lugares, descobrir pessoas. Se afastar de casa, conhecer o mundo, voltar para casa. A jornada de autodescoberta da Yuma teve tudo! Ela expandiu de forma inimaginável o seu repertório e ampliou o universo de coisas às quais tem acesso, sua jornada foi tão eficiente que a fez perceber verdades também sobre sua carreira. Existe um mundo todo de coisas que podem ser exploradas como histórias para mangá, e aliando sua criatividade inata, sua sensibilidade artística e, agora, todo repertório que a vida lhe proporcionou, para Yuma o céu é o limite.

Não deixe de se surpreender e se emocionar com esse drama recheado de verdades, surpresas e sensibilidade que Hikari conseguiu imprimir em sua obra. Um filme lindo e que vale cada um dos 115 minutos de duração.

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