Para toda a família assistir junta, Soul é surpreendente e acalentador. Animação para adulto e um convite para autoreflexão

Para toda a família assistir junta, Soul é surpreendente e acalentador. Animação para adulto e um convite para autoreflexão

Mergulhado no universo musical e na beleza que existe em transcender, a animação Soul, que estreou dia 25 de dezembro exclusivamente na plataforma Disney +, é de fato um presente para toda a família. Uma animação visualmente perfeita, que enche nossos olhos de brilho, cores e detalhes, e ao mesmo tempo leva a uma profunda reflexão, comprovando que se trata de um filme para todas as idades, talvez até mais para os adultos, embora as crianças também consigam acompanhar sem esforços.

Para quem ainda não assistiu, trata-se da história de um professor de música, Joe, um homem negro de meia idade, que sonha em tocar em uma banda. Ele vive frustrado por ser professor e acreditar que seu real propósito na vida, que é ser um artista reconhecido e famoso, ainda não foi alcançado. Um dia, um ex-aluno consegue para ele uma audição para compor a banda de uma famosa jazzista, Dorothea Williams. Ele é aceito, já que o ato de tocar piano faz com que sua alma transcenda e torna sua música singular. Ao sair da audição ele sofre um acidente e vai para um outro plano, onde a história do filme começa de fato: voltar para seu corpo e finalmente tocar no show da sua vida! Nesse processo ele encontra uma jovem alma, 22, que está em busca do seu propósito de vida para que possa vir a Terra. Juntos, a dupla faz o inimaginável, trazendo uma leveza, tão necessária para acompanhar um filme que trata de um assunto tão denso.

Viver tem a ver com experimentar tudo o que a vida te oferece, inclusive as frustrações. Joe vive em busca do seu propósito e ao acompanharmos a sua história, vemos todo o seu esforço, sacrifícios, expectativas familiares não atendidas, que ele escolhe viver. Chegar ao seu propósito implica em estar disposto a “pagar o preço” por sua escolha. Compreender essa faceta da vida, pode te ajudar a lidar melhor com ela. Isso nos faz mais maduros e capazes de evoluir na direção a qual nos propomos.

O assunto em questão é: todos nós temos um propósito de vida? Uma missão que sem que tenhamos cumprido não podemos morrer? O professor tem certeza que seu propósito é tocar naquele show, e a jovem alma tem certeza que não há propósito algum em viver. Dessa forma, o filme vai trabalhando uma série de questionamentos existenciais, que graças às diferenças de seus personagens fluem com uma beleza enorme e de forma impactante. Inclusive, estar em dupla traz para a animação um conceito trabalhado indiretamente no filme, de que uma pessoa só é uma pessoa através de outra pessoa. É um conceito Zulu, traduzido pela palavra Ubuntu, que dependendo do contexto, pode ter um significado mais profundo: se o que você faz impacta outras pessoas, então isso é de fato o seu propósito. Esses detalhes revelam o cuidado da produção com a história, basicamente mergulhada no universo afro-americano, que também é apresentado em detalhes espalhados no filme. O título em duplo sentido, já que soul significa alma, mas também é um gênero musical afro-americano, a barbearia lotada e toda a ambientação na casa de show, são exemplos do cuidado em ser fiel.

Para trabalhar essa questão existencial, o filme recorre à técnica de mostrar coisas corriqueiras como sentir o vento no rosto, o gosto de uma boa comida, o mar molhando os pés, para nos lembrar que no mais simples existe beleza, e que se esse não é o grande propósito, só por isso já vale a pena viver. De forma até um pouco melancólica, também nos mostra como é incrível olhar a vida com os olhos do inédito, com aquela magia que surpreende ao ponto de fazer prender o ar para não perder nada daquele exato instante. Por fim, nos revela que muitas vezes corremos desesperadamente atrás da felicidade sem nos dar conta de que ela está logo ali, bem ao nosso lado, o que poderia ser até bastante deprimente, mas fica com um tom otimista, pois se você percebe isso, então há tempo de aproveitar dessa felicidade.

Entre tantas lições comoventes e belíssimas, Soul vale cada um dos seus 107 minutos de duração. Nos faz refletir sim, mas de uma forma revigorante, ele apazigua nosso sentimento de busca de um motivo para tudo e deixa nossos corações com um quentinho de esperança, por que mostra que é necessário apenas uma pequena fagulha de paixão para que nós mesmos sejamos capazes de construir o nosso propósito.

No Comments

Post A Comment